Rio São Francisco: Minientrevista - Luiz Flávio Cappio - Bispo da Diocese de Barra (BA)
Obra está prometida para 2017, mas especialistas dizem que São Francisco está secando!
São oito anos de obras, mais de R$ 7 bilhões em gastos e 12 milhões de pessoas esperançosas com o tão prometido acesso à água após a transposição do rio São Francisco. Mas o ano de 2015 já está no fim, e não há nenhuma gota de água do rio passando pelos infindáveis canais já construídos para matar a sede no semiárido brasileiro.
Especialistas garantem que, mesmo após 2017 – o mais recente prazo, dentre muitos estipulados pelo governo federal, para entregar a totalidade da obra –, o funcionamento do sistema continuará inerte por um motivo: sem água, o Velho Chico agoniza e tem sua morte anunciada para um futuro bem próximo.
“Anêmico não tem condições de doar sangue”, resume o mais emblemático símbolo da resistência à transposição, frei Luiz Flávio Cappio, bispo da Diocese de Barra, na Bahia, que fez duas greves de fome, em 2005 e 2007, em protesto à principal bandeira do ex-presidente petista Luiz Inácio Lula da Silva.
O lago de Sobradinho, no Médio São Francisco, maior reservatório de água do Nordeste, atingiu, na última quinta-feira, 2,24% de seu volume útil, o mais baixo da história. A barragem, com capacidade de 34,1 bilhões de metros cúbicos, é peça crucial para a geração de energia na região Nordeste e para alimentar a transposição do rio da integração nacional. A outorga federal garante a retirada de 127 mil litros de água por segundo do rio para alimentar o sistema de transposição, desde que a barragem de Sobradinho esteja com, pelo menos, 94% de sua capacidade.
Ferrenho crítico da transposição antes mesmo do início da obra, o ambientalista Apolo Heringer, fundador do Projeto Manuelzão (UFMG), avisa: “O São Francisco não vai ter água para a transposição, antes mesmo de a obra terminar. A barragem estará em volume morto até o fim deste mês”.
Com a promessa de levar água a 390 municípios do Nordeste Setentrional – Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará –, a transposição pode acelerar a morte do Velho Chico, deixando órfãos 18 milhões de ribeirinhos dos Estados de Minas, Bahia, Pernambuco, Alagoas e Sergipe. “É um volume elevado de água (que se pretende transpor) para um rio que está morrendo, em processo de degradação. É uma obra superdimensionada”, disse Heringer, destacando que o próprio diretor do Departamento Nacional de Obras Contra a Seca (Denocs) à época foi contra esse volume.
“Desidratado”, como diz Heringer, o abastecimento de inúmeras cidades que dependem das águas do rio já está em risco, como é o caso de Aracaju (SE), que utiliza as águas do São Francisco para 70% do uso na cidade.
Projeto antigo
Transposição. O projeto do São Francisco é centenário, e, nas primeiras discussões, a proposta foi arquivada por incoerências. Consiste na transferência de águas para abastecer rios e açudes.
Comitê gestor defende guinada em estratégia de recuperação
O Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco luta, há pelo menos dois anos, pela reformulação do Comitê Gestor da Revitalização, como afirmou o presidente da entidade, Anivaldo de Miranda. A crítica é a mesma feita por outros especialistas: a de que a aplicação dos recursos na recuperação ambiental feita pelo governo federal é equivocada e sem planejamento.
Da primeira vez em que fez a greve de fome contra a transposição, em 2005, frei Luiz Flávio Cappio recebeu do presidente Lula a promessa de que haveria um investimento robusto na revitalização do Velho Chico. A greve de fome foi encerrada depois de 11 dias. “O então presidente não levou a sério seu compromisso. Mentiu para mim e para a nação brasileira. Aliás, característica marcante dos últimos governos: a mentira como forma de manutenção do poder”, declarou.
Se os R$ 7 bilhões gastos nas obras de transposição tivessem sido investidos em ações ambientais para a recuperação do rio, o volume poderia estar hoje três ou quatro vezes maior, segundo Apolo Heringer, idealizador do Projeto Manuelzão, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). “Mas isso depende da concepção de revitalização”, explicou.
A Comissão Externa sobre a transposição do Rio São Francisco discute nesta terça-feira (22) os resultados de auditoria realizada pelo Tribunal de Contas da União (TCU) nas obras de esgotamento sanitário nos municípios a serem beneficiados pelo Projeto de Integração do Rio São Francisco nos estados de Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará.
De acordo com o deputado Raimundo Gomes de Matos (PSDB-CE), que propôs o debate, o TCU protocolou recentemente acórdão com determinações ao Ministério das Cidades e à Funasa e com recomendações ao Ministério da Integração Nacional, em virtude de problemas identificados nas obras de esgotamento sanitário existentes nos municípios a serem beneficiados pelo projeto.
Entre os principais problemas identificados pelo TCU, estão: a) paralização de 55% das obras; b) 30% das obras com licença ambiental de instalação vencida; c) empresas contratadas sem a capacidade operacional necessária; d) alto risco das águas da Transposição serem contaminadas pelo lançamento de esgotos; e e) diversas obras estão concluídas em processo de deterioração por falta de uso.
Fonte: Diário de Pernambuco
Por Tainá Almeida – Revista Barra Magazine